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Copom baixa os juros para 9,75%.

 

BC reduziu Selic em 0,75 ponto percentual nesta quarta-feira (7). Decisão divide opinião de especialistas e entidades civis.

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central desta quarta-feira (7) de baixar os juros básicos da economia brasileira para 9,75% divide a opinião de especialistas e entidades civis.

A redução de 0,75 ponto percentual é a maior desde junho de 2009. Com a decisão, a autoridade monetária acelerou o processo de redução da taxa Selic, iniciado em agosto do ano passado. Desde aquele mês, os juros haviam recuado em quatro reuniões consecutivas, na intensidade de 0,5 ponto percentual por encontro. A redução desta semana foi a quinta seguida, baixando os juros ao menor patamar desde meados de 2010.

Veja o que analistas de mercado e entidades civis acharam da decisão do Copom:

Fernando de Holanda Barbosa Filho, economista e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) “O resultado do PIB está diretamente relacionado a essa queda maior dos juros. Todo mundo esperava uma redução, a queda de 0,5 ponto percentual já estava relativamente garantida, inclusive após declaração do Tombini (Alexandre Tombini, presidente do BC) de que havia espaço para derrubar o juro. O crescimento da economia de apenas 2,7% não é nenhuma tragédia, mas todo este cenário pressionou o Banco Central. Se o PIB está crescendo abaixo do seu potencial, existe espaço para reduzir a taxa de juros sem haver pressão inflacionária forte. Isso levou o Banco Central a agir de forma mais agressiva.”

Gilberto Braga, professor de Finanças do Ibmec-RJ “A impressão que deu é que o governo deu uma pisada no acelerador e aumentou a velocidade. Esta redução de 0,75 ponto percentual não chega a ser uma surpresa, mas é um marco no sentido de mostrar que é um passo grande para um governo que vinha promovendo reduções em doses homeopáticas. Aumentamos a dosagem do remédio. Isso tem um alinhamento com o noticiário político, esta visita da Dilma à Alemanha, é uma resposta a todo este cenário e está um pouco em linha com o que alguns ex-presidentes do Banco Central e ministros da Economia têm falado sobre o fato de que quando há dinheiro barato lá fora e taxas de juros altas aqui dentro, é preciso diminuir os juros reais internos para não ser tão atraente para o dinheiro especulativo. É isso que o Banco Central está tentando fazer. O medo que se tem, no entanto, é se a gente vai conseguir manter um ponto de equilíbrio do ponto de vista macroeconômico. Quando aumenta a dose mirando em um ponto, pode acertar em outro, ou seja, pode acertar na inflação. Dinheiro barato acelera o consumo interno e traz uma perspectiva de pressão de preços, sobretudo para o futuro. É um equilíbrio muito tênue. No ano passado, o governo mostrou que manobrou mal. Começou acelerado, pisou no freio no meio do ano e soltou no final. O ideal é que 2012 seja menos abrupto, com uma velocidade mais estável de navegação.”

Cristiano Costa, economista especialista do Instituto Millenium e professor da Fucape “O relatório Focus do dia 2 mostra certa estabilidade da inflação em 2012, aos poucos, está convergindo para o centro da meta. O que chama a atenção, no entanto, é com relação à expectativa da inflação de 2013. Esta redução da taxa de juros vai aquecer a economia. E esta redução pode demorar mais de seis meses para fazer efeito, pode começar a aparecer por volta de outubro, eventualmente até novembro. Não dá para prever os desdobramentos da crise da Europa, mas em o cenário externo se mantendo dentro da normalidade, começa a preocupar a inflação de 2013. A velocidade que o BC está aumentando a oferta de crédito pode ser muito grande. Pode estar se desenhando um cenário que vai tornar a vida um pouco mais custosa para quem não consegue se proteger da inflação. E é importante lembrar que diversos fatores afetam a competitividade da nossa indústria, que não só o câmbio. Meu receio é que o Banco Central esteja um pouco contaminado pelo ambiente político. É importante manter um Banco Central muito independente e preocupado somente com a meta da inflação. O temor do mercado é que em algum momento a autoridade monetária perca esta credibilidade.”

Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) “O governo precisa implantar um conjunto de medidas que seja capaz de mudar qualitativamente a situação da indústria. Precisamos de ações imediatas para recuperar a competitividade brasileira em relação ao câmbio, juros, custo de energia e infraestrutura para que o nosso país pare de exportar empregos.”

Carlos Cordeiro, presidente da Contraf-CUT “O Brasil continua com uma das maiores taxas de juros do mundo, o que impacta também na nossa dívida pública. Em 2011, o pagamento de juros da dívida pública consumiu R$ 216,1 bilhões somente até novembro. É o ‘bolsa-banqueiro’, o maior programa de transferência de renda do governo, beneficiando os mais ricos. É fundamental acelerar a queda na Selic e também pressionar os bancos por juros menores, incentivando as áreas produtivas e a criação de emprego. (…) O resultado foi o baixo crescimento do PIB, que aumentou apenas 2,7% no ano passado. A Contraf-CUT alertou desde o início para o erro de ceder às pressões do mercado financeiro e aumentar os juros, mas fomos ignorados. O BC preferiu olhar apenas para a inflação e sacrificou o crescimento da economia e a geração de emprego e renda para os trabalhadores. Agora, a direção do BC precisa acelerar o processo de derrubada da taxa básica para corrigir a barbeiragem que fez lá atrás.”
Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) “A queda de 0,75 ponto porcentual na Selic foi acertada e bem-vinda para o quadro econômico atual, chegando pela segunda vez na história ao patamar de um dígito. A FecomercioSP já esperava a queda, uma vez que, segundo dados divulgados pela Fipe houve deflação de 0,07% em fevereiro, sendo que os preços no varejo caíram 0,51% no mesmo período. Para a FecomercioSP, um fator adicional que abre espaço para uma queda de juros maior é o fato da taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no último trimestre de 2011 ter sido de apenas 1,4%. A entidade entende que esse ritmo de crescimento é muito abaixo do potencial brasileiro e não tem como gerar inflação. Com um crescimento de apenas 2,7% no ano, dizer que a economia está superaquecida é uma falácia. Com menor peso, mas também muito importante, está o fato de que um dos principais motivos para que o câmbio se mantenha muito valorizado é o diferencial entre juros externos e internos. (…) Como o Brasil paga mais do que 10% ao ano, o prêmio adicional atrai capitais em excesso, que, no final das contas, alimenta o ciclo de valorização do real. A maneira adequada, dentro dos mecanismos de mercado para combater o ‘tsunami monetário’ dos países desenvolvidos é exatamente baixando os juros internos.”

Orlando Diniz, presidente da Fecomércio-RJ “Um dia depois de tomarmos ciência do grau de desaceleração da economia brasileira, não poderíamos receber outra decisão do BC. Se já era um resultado esperado, depois da divulgação do PIB desta 3ª feira, o corte firme nos juros tornou-se ainda mais premente. Vivemos hoje um ambiente marcado por inflação em queda, cortes no orçamento federal, desaquecimento de importantes economias no front internacional, crescimento doméstico abaixo de seu potencial, investimentos em vias de maturação e diferencial de juros como atrativo ao capital especulativo. A redução acelerada dos juros é condição essencial para ampliarmos nossa capacidade de crescer sem gerar inflação, por meio do impulso aos investimentos, do maior fôlego às contas públicas e pela atração de recursos internacionais voltados à economia real.”

Confederação Nacional da Indústria (CNI) “A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de ampliar o ritmo de redução da Selic, com queda de 0,75 ponto percentual, é indispensável para enfrentar o quadro atual de enfraquecimento da atividade econômica brasileira, em especial da indústria. Esse quadro e a expansão da liquidez internacional justificam a ação mais agressiva do Banco Central. O fraco resultado do Produto Interno Bruto (PIB) em 2011 e a queda da produção industrial em janeiro, apurados pelo IBGE, explicitam a situação de perda de ritmo da atividade industrial. (…) Entre outros fatores que elevam o custo de produzir no Brasil, estão o câmbio sobrevalorizado e juros reais dos mais altos do mundo. Há necessidade imediata de novas reduções na Selic.”

Pellizzaro Junior, Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) “Em uma economia globalizada, os efeitos externos provocam ondas fortes muitas vezes indesejadas, conforme constatou o próprio IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), ao divulgar um crescimento de apenas 2,7% do nosso PIB (Produto Interno Bruto) em 2011. É preciso pulso forte para evitar um número igualmente pífio em 2012. (…) O Brasil não tem muito o que fazer em relação à desvalorização artificial que a Europa promove sobre o euro. É papel deles fazer o que é melhor para sua população. Cabe a nós, no entanto, tentar reduzir a atratividade do capital especulativo que possa vir tentar lucrar com nossas ainda altas taxas de juros. É esse dinheiro, o de curto prazo, que rapidamente vai embora do País que preocupa, não o investimento produtivo. Esse está em falta.”

Fonte: G1